IA na evangelização: até onde podemos ir? Oportunidades e limites éticos

IA na evangelização - até onde podemos ir

IA na evangelização; Vale  tudo? O que é ético e o que não é?

O tema é hoje objeto de reflexão crescente na sociedade e também deve ser dentro da Igreja, pois há sim limites éticos a observar. Mas também há oportunidades na evangelização.

Acompanhando os avanços acelerados dos últimos anos observo que é necessário sabedoria, prudência e virtude, e assim, pode-se usá-la em contexto específicos com grande benefício, mas não se deve usar em outros contextos. O Papa Leão tem alertado que toda tecnologia deve estar a serviço da dignidade humana e do bem comum, e não pode substituir a responsabilidade moral da pessoa. A IA, portanto, não é neutra: seu uso exige prudência, discernimento e formação e reflexão ética.

Há riscos reais como a manipulação da verdade, a superficialidade nas relações e a delegação indevida de decisões humanas a sistemas automatizados. Por isso, a Igreja nos convida a usar essas ferramentas com consciência, respeitando sempre a centralidade da pessoa humana e da verdade.

Alerta sobre uso de voz e rostos por IA

Uma das falas do Papa critica o uso de avatar humanoide, onde o rosto de uma pessoa é completamente construído por uma IA ou então se criam rostos de pessoas que não existem. Isso é problemático porque o rosto e a voz revelam a pessoa humana, que é imagem de Deus. Pode ser considerada uma forma de “fraude” da relação humana por meio digital, portanto, mostra-se inadequada. O rosto e a voz revelam a pessoa humana e são meios diretos de relacionamento interpessoal.

Alerta sobre criação de textos espirituais, homilias e textos autorais

De forma similar, usar a IA para criar uma homília ou um texto com foco espiritual parece totalmente inadequado.  O apostolado não nasce da técnica, mas da vida interior. Sabemos que o apostolado, testemunho ou evangelização deve ser fruto da vida espiritual, como ensinou São Josemaria Escrivá – Caminho, 961: “É preciso que sejas “homem de Deus”, homem de vida interior, homem de oração e de sacrifício. – O teu apostolado deve ser uma superabundância da tua vida “para dentro”.

O ensinamento de Escrivá faz eco a muitos outros santos e padres da igreja, como São Carlos  Borromeu, que dizia que antes de ensinar, é preciso rezar.

Portanto, não se deve usar o ChatGPT ou outra IA para criar textos de cunho catequéticos, espirituais muito menos uma homília.

Se nossa evangelização deve ser fruto da ação do Espírito Santo, como o Espírito Santo irá agir em uma máquina, que não tem vida espiritual, não reza e não é imagem de Deus? Essa frase quase cômica mostra como é inadequado usar a IA para criar textos de pregação ou evangelizar.

Agora, pode-se usar para revisar textos em termos ortográficos e de clareza, como quem consulta um revisor gramatical. Recomendo nestes casos não pedir para corrigir seu texto, mas apontar os erros um a um, de modo que você os veja, analise e aprenda com eles, como faria um professor de português. Por isso falo da virtude no uso da IA. Se a preguiça e a pressa falarem mais alto, você diz para IA: ajuste meu texto. Pronto. Se você quer manter-se virtuoso, diga: analise meu texto e aponte erros gramaticais ou de digitação um a um, para eu eu o ajuste.

Também é interessante o uso da IA como mais uma forma de buscar informação, como um buscador mais abrangente. Ainda assim, muita prudência e virtude, porque pode ser uma preguiça ou pressa exagerada, já que no buscador tradicional se pode avaliar melhor alguns resultados. Se for consulta acadêmica, recomendo manter o modo tradicional no pubmed e outros sites, e se usar a IA, faça como apoio, não como meio principal. E o texto autoral, faça você mesmo.

Onde pode ser bom usar IA na evangelização?

A inteligência artificial abre oportunidades inéditas para a evangelização, como na criação de imagem rápida para divulgar um evento, por quem antes não tinha este conhecimento, ou para criação de sistemas como um site, por exemplo. Aquilo que antes era restrito a grandes instituições com muitos recursos, na criação de sites, plataformas de formação, sistemas de acompanhamento pastoral ou materiais digitais, hoje se torna acessível a paróquias, movimentos e apostolados menores.

Use IA para criar o site do seu apostolado ou paróquia

Isso é possível, fácil e rápido com ferramentas como o Lovable, que permitem criar rapidamente um sites, sistemas e projetos com qualidade profissional, sem que a pessoa necessite saber programar ou ter recursos para contratar uma empresa para isso.

Aqui temos uma grande oportunidade de acelerar a missão evangelizadora.

Fizemos isso com a nova plataforma internacional da Pius. Embora eu tenha mais de 15 anos de experiência com desenvolvimento WordPress, com inúmeros sites lançados para evangelização em plataforma WordPress (como é o caso deste site), criamos nosso primeiro projeto feito totalmente com IA por meio do Lovable – nosso novo site chamado piusinstite.org – visite e veja como é funcional e repleto de recursos. E já está dando frutos para evangelização ao levar divulgar a missão para inúmeros países com muito mais eficácia que os meios anteriores.

A tecnologia permitiu romper limitações grandes como a venda de livros para múltiplos países com diferentes moedas e formas de calcular fretes, usando diferentes meios de pagamento. Isso até seria possível desenvolver em WordPress, mas demandaria semanas ou meses de desenvolvimento com um desenvolver altamente capacitado. No Lovable, desenvolvi em um dia e com um custo cerca de R$ 250,00 toda o necessário para o projeto ser lançado em tempo recorde. No Lovable, toda programação é feita pela máquina, mas a ideia, cada decisão e orientação depende de nosso pensamento. Sobre o desemprego dos desenvolvedores? Em parte, está ocorrendo, mas creio que muitos desenvolvedores serão os responsáveis por operar o Lovable, porque quem tem mais visão de TI usa melhor estas ferramentas para soluções complexas.

E para sites mais simples, sem sistemas de venda, múltiplos idiomas e moedas, certamente qualquer pessoa consegue desenvolver no Lovable criando uma conta.

Assim que é criada a conta você tem 100 créditos gratuitos para testar, que em geral permite desenvolver sites bem simples ou a estrutura principal de uma ideia mais complexa. Depois, você precisa investir valores que iniciam em 25 dólares (aprox R$ 130 reais) por mês. O custo maior é na fase de criação, mas como comprovei, sites relativamente complexos podem ter um custo total bem baixo, como eu tive na fase 1 e 2 um custo de 50 dólares, ou seja, cerca de R$ 250,00. Mas claro, antes de lançar uma plataforma reflita bem antes se você poderá manter o custo fixo de 4 a 25 dólares mensal, ao longo do tempo. Não é um custo alto para projetos mais maduros.

Este desenvolvimento com o Lovable não elimina a necessidade de conhecimento ou discernimento, mas representa um verdadeiro “upgrade” das ferramentas disponíveis. Quando usada com virtude e para o bem, a tecnologia pode multiplicar os talentos colocados a serviço da Igreja.

Um site paroquial mais estruturado, uma plataforma de formação acessível ou um sistema simples de organização pastoral podem alcançar muitas almas que, de outra forma, não seriam atingidas. A velocidade e a simplicidade proporcionadas por esse tipo de tecnologia permitem que evangelizadores foquem mais no conteúdo e na missão, e menos nas barreiras técnicas. E aí sim, terão tempo para fazer os textos e pregações sem usar a IA, por favor. Usem a IA para questões estritamente técnicas de apoio a evangelização, isso sim é um uso coerente.

A reflexão ética permanece indispensável: a tecnologia deve servir à verdade, à comunhão e à salvação das almas.

Na verdade, sempre foi assim desde o uso de máquinas de impressão de livros – inclusive, há décadas são altamente automatizadas. E também foi assim com Carlos Acutis, que usou provavelmente algum software como FrontPage ou Dreamweaver para criar seu site sobre milagres Eucarísticos. Certamente, exigiu dele mais tempo de estudo sobre como criar páginas web, se comparado a um missionário digital de hoje. No fim das contas, o que mudou foi a forma técnica de desenvolver o site. Neste aspecto, não há grande mudança em termos éticos, mas há sim uma grande oportunidade para quem antes pensava que não poderia criar ou que era muito caro criar. O problema é quando começamos a imitar voz e rostos humanos e quando se cria com a IA textos autorais e conselhos espirituais, aí os problemas éticos são grandes.

Enquanto editor de livros, não posso deixar de citar e alerta: não usem IA para criar seus textos autorais. As redes sociais estão ficando repleta de “falas” da IA. É até desestimulador. Por que vou seguir uma pessoa, se ela só publica textos do ChatGPT? Ok, ela foi “curadora” do texto. Mas sabemos e reconhecemos na escrita que a IA fez 90 a 100% do texto, com seis vícios de linguagem. Evitem isso ao máximo na internet, e jamais usem isso para qualquer projeto editorial. Na nossa editora, temos a orientação expressa aos autores, o texto deve ser do autor, escrito com suas palavras advindas de sua alma, sem plágio disfarçado e sem uso de IA, afinal, são textos que devem tocar a alma de outra pessoa, assim, é necessário que seja pessoal, uma relação de autor para leitor.

Uso de IA para geração de imagem

A imagem de capa deste artigo foi feita por IA. Aqui temos outra oportunidade, a meu ver é totalmente ética porque o foco deste conteúdo é o texto, que é onde está o autoral, o pensamento individual, a reflexão de uma pessoa para outra pessoa, num relacionamento humano escritor x leitor. A imagem é ilustrativa e não sou um designer, portanto, não se está fingindo saber o que não sabe, não se atenta contra a arte ou artista, em um blog. Esse tipo de discernimento ético deve estar sempre presente hoje.